Milagres de Jesus 2018-09-01T10:00:58-03:00

Milagres de Jesus

O paralítico de Betesda

Sermão pregado domingo pela manhã, Abril 7, 1867, Por CHSpurgeon.

 

Algum tempo depois, Jesus subiu a Jerusalém para uma festa dos judeus. Há em Jerusalém, perto da porta das Ovelhas, um tanque que, em aramaico, é chamado Betesda, tendo cinco entradas em volta. Ali costumava ficar grande número de pessoas doentes e inválidas: cegos, mancos e paralíticos. Eles esperavam um movimento nas águas. De vez em quando descia um anjo do Senhor e agitava as águas. O primeiro que entrasse no tanque, depois de agitadas as águas, era curado de qualquer doença que tivesse. Um dos que estavam ali era paralítico fazia 38 anos. Quando o viu deitado e soube que ele vivia naquele estado durante tanto tempo, Jesus lhe perguntou: “Você quer ser curado?”. Disse o paralítico: “Senhor, não tenho ninguém que me ajude a entrar no tanque quando a água é agitada. Enquanto estou tentando entrar, outro chega antes de mim”. Então Jesus lhe disse: “Levante-se! Pegue a sua maca e ande”. Imediatamente o homem ficou curado, pegou a maca e começou a andar. Isso aconteceu em um sábado (Jo 5.1-9).

O cenário desse milagre foi Betesda — um tanque, segundo o evangelista, ao lado do mercado das ovelhas, ou perto da porta das Ovelhas, por meio da qual, segundo suponho, o gado consumido pelos habitantes de Jerusalém seria tangido; o tanque em que, talvez, fossem lavadas as ovelhas vendidas aos que fariam ofertas no templo. Nos dias do Salvador, as enfermidades eram tão comuns que as doenças humanas invadiam o local destinado ao gado, e o lugar em que as ovelhas tinham sido lavadas tornou-se o lugar em que os doentes se uniam em grandes multidões, ansiando por cura. Não há registro de que alguém tenha reclamado da intrusão, ou que a opinião pública ficasse chocada. As necessidades dos homens devem sobrepujar todas as considerações do gosto. O hospital deve ter preferência ao mercado de ovelhas. Hoje mesmo vocês estão com outro caso típico. Já que as enfermidades físicas de Jerusalém invadiam o mercado de ovelhas, eu não peço desculpas se, nestes dias do Senhor, a enfermidade espiritual de Londres exigisse que este lugar espaçoso, até agora entregue ao mugir do gado e ao balir das ovelhas, seja consagrado à pregação do evangelho, à manifestação do poder de Cristo Jesus fazer curas entre os espiritualmente enfermos. Hoje mesmo, ao lado do mercado de ovelhas, há um tanque, e os doentes e inválidos estão aqui às multidões.

É possível que nunca tivéssemos ouvido falar em Betesda se um visitante augusto não tivesse a condescendência de honrá-lo com a sua presença. Jesus, o Filho de Deus, andava nos cinco pórticos em volta do tanque. Era o lugar em que poderíamos esperar encontrá-lo, pois onde o médico seria achado a não ser no lugar onde os doentes se reúnem? Ali havia serviço para a mão de Jesus na cura, e para a palavra restauradora. Era perfeitamente natural que o Filho do Homem, que “veio buscar e salvar os perdidos”, fizesse seu caminho até a casa dos lazarentos à beira do tanque. Essa visita graciosa é a glória de Betesda. Ele soergueu o nome desse tanque para cima da categoria comum das fontes e águas da terra. Quem dera que o Senhor Jesus entrasse neste lugar nesta manhã! Seria a glória deste Salão, que o tornaria famoso na eternidade. Se Jesus estivesse presente para curar, o tamanho notável desta congregação cessaria de causar espanto, e o renome de Jesus e do seu amor salvífico eclipsaria tudo o mais, como o sol apaga a luz das estrelas. Meus irmãos, Jesus estará aqui, porque temos quem conhece, e tem influência sobre ele, e pede a sua presença. O povo favorecido do Senhor, mediante clamores e lágrimas, conquista da parte dele seu consentimento para estar em nosso meio hoje, e ele anda no meio dessa multidão, tão disposto a curar e tão poderoso para salvar como nos dias da sua carne. “E eu estarei com vocês, até o fim dos tempos” (Mt 28.20), é a promessa que consola o coração do pregador nesta manhã. O Salvador presente no poder do Espírito Santo levará este dia a ser lembrado por muitos que serão restaurados.

Peço a atenção sincera de todos, e aos crentes peço orações fervorosas de apoio enquanto os convido, em primeiro lugar, a observar o doente; em segundo lugar, dirijo seus olhos atentos ao Médico dos médicos; e, em terceiro lugar, faço a aplicação da narrativa toda à situação presente.

 

I. A fim de observar o paciente, peço-lhes para me acompanharem ao tanque com as cinco entradas, por onde os enfermos estão deitados. Andem com delicadeza entre os grupos de paralíticos e cegos! Não, não fechem os olhos. Fará bem a vocês, terem essa visão lastimável, a fim de notar o que o pecado faz, e as tristezas que nosso pai Adão nos deixou como herança.

Por que todos eles estão aqui? Estão aqui porque, às vezes, as águas borbu-lham com capacidade para curar. Quer tenham sido visivelmente agitadas por um anjo, quer não, não é necessário debater aqui; mas acreditava-se que um anjo descia e tocava na água — e essa história atraía doentes de todos os lugares. Tão logo a agitação das águas era vista, a massa inteira de gente, provavelmente, pulava dentro do tanque — quem não conseguia pular sozinho era empurrado para dentro pelos atendentes. Que pena! Era mínimo o resultado! Muitos ficavam decepcionados; somente um ganhava a recompensa pelo pulo; o primeiro a entrar era curado, mas só o primeiro. Em troca da pobre e diminuta oportunidade de ganhar a cura, os doentes demoravam-se nas arcadas de Betesda ano após ano. O paralítico da narrativa tinha provavelmente passado a maior parte dos seus 38 anos de enfermidade esperando à beira desse tanque famoso, animado pela parca esperança de que algum dia fosse o primeiro da multidão. No sábado mencionado no texto, o anjo não viera a ele, mas alguém melhor, pois Jesus Cristo, o Senhor dos anjos, estava presente.

Notem, no tocante a esse homem, sua plena consciência da enfermidade. Não disputava a falha da sua saúde: era paralítico; sentia isso, e o reconhecia. Não era como alguns presentes nesta manhã, perdidos por natureza, mas que não sabem disso, ou não querem confessar o fato. Ele estava consciente da necessidade de ajuda celeste, e sua espera à beira do tanque demonstrava isso. Não existem muitos nesta assembléia igualmente convencidos disso? Você se sentiu durante muito tempo pecador, e sabe que, a não ser que a graça o salve, nunca poderá ser salvo. Você não é ateu, nem repudia o evangelho; ao contrário, você crê com firmeza na Bíblia, e deseja sinceramente ter participação salvífica em Jesus Cristo; mas, por enquanto, não avançou mais longe que sentir a doença, e desejar ser curado, e reconhecer que a cura precisa vir de cima. Até aqui, tudo bem, mas não é bom parar nessa condição.

O paralítico, portanto, querendo ser curado, aguardava à beira do tanque, esperando algum sinal e maravilha. Esperava que o anjo abrisse repentinamente os portões de ouro e tocasse nas águas agora calmas e estagnadas, e então fosse curado. Este, também, meus caros ouvintes, é o pensamento de muitos que sentem seus pecados e desejam a salvação. Aceitam os conselhos antibíblicos e perigosos oferecidos por determinados tipos de ministros; esperam à beira de Betesda; perseveram no uso formal de meios e de ordenanças, e continuam na incredulidade, aguardando algo grandioso. Permanecem na recusa contínua de obedecer ao evangelho, porém esperam, de repente, experimentar algumas emoções estranhas, sensações singulares, ou impressões notáveis; esperam ter uma visão, ou ouvir uma voz sobrenatural, ou ficar alarmados com delírios de horror. Ora, caros amigos, não negaremos que poucas pessoas foram salvas por interposições muito singulares da mão de Deus, de modo totalmente incomum do procedimento divino. Seríamos muito tolos se disputássemos a veracidade de uma conversão como a do coronel Gardiner que, na mesma noite em que marcou um encontro para cometer pecado, foi detido e convertido por uma visão de Cristo na Cruz, a qual, de qualquer forma, pensava ter visto, e por ouvir, ou imaginar que ouviu, a voz do Salvador pleiteando ternamente com ele. Seria fútil disputar a ocorrência de casos semelhantes e que possam ocorrer de novo. Devo, no entanto, rogar aos inconversos que não dependam de interposições semelhantes nos seus casos. Quando o Senhor lhes manda crer em Jesus, que direito têm de exigir sinais e maravilhas como alternativa? O próprio Jesus é a maior de todas as maravilhas. Meu caro leitor, ficar aguardando experiências notáveis é tão fútil como a multidão que permanecia em Betesda, aguardando o anjo, ao passo que quem podia curá-lo lá estava em pé no meio deles, negligenciado e desprezado. Que espetáculo digno de fé, vê-los olhando atentamente para as nuvens, enquanto estava presente o médico que poderia curá-lo, e não lhe ofereciam nenhuma petição, e não buscavam misericórdia das suas mãos.

Tratando do método de esperar para ver ou sentir alguma coisa grandiosa, notamos que não é a maneira que Deus mandou seus servos pregar. Desafio o mundo inteiro a achar qualquer evangelho de Deus no qual o inconverso é ordenado a permanecer na incredulidade. Onde o pecador é ordenado a esperar por Deus no uso das ordenanças, para que possa ser salvo? O evangelho da salvação é este: “Creia no Senhor Jesus, e você será salvo”. Quando o Senhor comissionou seus discípulos, disse: “Vão pelo mundo todo e preguem o evangelho a todas as pessoas” (Mc 16.15). E qual é o evangelho? Mandar que esperem na incredulidade no uso dos meios e ordenanças até ver algo grandioso? Mandar que sejam diligentes na oração, e leiam a Palavra de Deus, até se sentir melhor? Nem uma partícula disso. Assim diz o Senhor: “Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado” (Mc 16.16). Esse é o evangelho, e o único evangelho que Jesus Cristo já mandou seus ministros pregarem, e os que dizem: “Aguardem os sentimentos! Aguardem as impressões! Aguardem as maravilhas!”, pregam outro evangelho. Mas há alguns que perturbam vocês. O enaltecimento de Cristo na cruz é a obra salvífica do ministério do evangelho, e na cruz de Jesus se acha a esperança dos homens. “Olhem para mim e sejam salvos, todos os confins da terra”, é o evangelho da parte de Deus; “Esperem à beira do tanque”, é evangelho dos homens, que já destruiu milhares de pessoas.

Esse evangelho pouco evangélico de ficar aguardando algo é de imensa popularidade. Não me causaria surpresa se bem perto de metade de vocês estão satisfeitos com ele. Ó meus leitores, vocês não se recusam a ocupar os assentos em nossos lugares de culto; é raro estarem ausentes quando as portas se abrem, mas aí vocês ficam sentados na incredulidade confirmada, esperando que janelas sejam feitas no céu, mas negligenciam o evangelho da sua salvação. O grande mandamento de Deus: “Creiam e vivam”, não recebe de vocês resposta a não ser ouvidos surdos, e o coração de pedra, enquanto aquietam a consciência com observâncias religiosas externas. Se Deus tivesse dito: “Fiquem sentados nos assentos e esperem”, eu, com coragem e com lágrimas, conclamaria vocês a fazer assim; mas Deus não disse isso; tão somente: “Que o ímpio abandone o seu caminho, e o homem mau, os seus pensamentos. Volte-se ele para o Senhor, que terá misericórdia dele”. Deus não tem dito: “Esperem”, mas, sim: “Busquem o Senhor enquanto é possível achá-lo; clamem por ele enquanto está perto” (Is 55.6,7). “Hoje, se vocês ouvirem a sua voz, não endureçam o coração” (Hb 3.7,8). Vejo que Jesus não diz nada a respeito de esperar, mas muita coisa a respeito de vir. “Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso” (Mt 11.28). “Se alguém tem sede, venha a mim e beba” (Jo 7.37). “O Espírito e a noiva dizem: ‘Vem!’ E todo o que ouvir diga: ‘Vem!’ Quem tiver sede, venha; e quem quiser, beba de graça da água da vida” (Ap 22.17).

Por que o caminho da espera tem tanta popularidade? É porque administra láudano para entorpecer a consciência. Quando o ministro prega com poder, e o coração do ouvinte fica comovido, o Diabo diz: “Espere uma ocasião mais conveniente”. Assim, o arquiinimigo derrama essa droga mortífera na alma, e o pecador, em vez de confiar em Jesus no mesmo momento, ou de joelhos dobrados e com olhos cheios de lágrimas, clamando por misericórdia, congratula-se por usar os devidos meios; e esse uso está muito bom, dentro das limitações, mas é excessivamente ruim quando passa a ocupar o lugar de Cristo crucificado. A criança deve escutar o que os pais ordenam, mas o que acontecerá se ela usar a audição como substituto da obediência? Deus não permita que eu me glorie em vocês escutarem o evangelho, e permanecerem apenas ouvintes — minha glória está na cruz; e a não ser que olhem para a cruz, melhor lhes seria nunca ter nascido.

Peço a atenção sincera de todos quantos têm ficado, assim, na espera, enquanto levanto uma ou duas questões. Meu caro amigo, essa espera não é um negócio bem desesperador?Entre os que ficavam esperando em Betesda, quão poucos chegaram a ser curados! O que descia primeiro no tanque era curado, mas os demais subiam no tanque na mesma situação em que desceram. Ah, meus leitores, estremeço de preocupação por alguns de vocês que freqüentam capelas e igrejas, estão aguardando há vários anos: quão poucos de vocês são salvos! Milhares morrem nos seus pecados, esperando na incredulidade. Alguns são salvos das chamas como quem foi arrancado do meio delas, mas a maioria dos que se endurecem no aguardar, esperam e esperam até morrer nos seus pecados. Advirto-os solenemente que, por mais agradável que seja à carne aguardar na incredulidade, não é uma situação na qual um homem razoável perseveraria por muito tempo. Pois você, meu amigo, não é um exemplo vivo da desesperança dela? Ficou esperando durante muitos anos; provavelmente não se lembra de quando freqüentou pela primeira vez um lugar de culto; sua mãe o levava para lá no colo, e você foi criado na sombra do santuário, como as andorinhas que fazem ninhos embaixo dos altares de Deus, e qual proveito para você foi aguardar na incredulidade? Fez de você um cristão? Não, você ainda está sem Deus, sem Cristo, sem esperança. Coloco o caso diante de você em nome de Deus: que direito tem de aguardar mais trinta anos? Estará diferente do que é agora? Não são fortíssimas as probabilidades de que aos sessenta anos de idade, você estará tão destituído de graça quanto aos trinta anos? Afinal, posso dizer, e ouso dizer sem egoísmo, alguns de vocês têm ouvido o evangelho pregado sem rodeios. Meus caros leitores, sempre lhes tenho falado do modo mais claro que posso; nunca me recusei a declarar-lhes toda a vontade de Deus, nem mesmo selecionar um caso individual e lidar com ele minuciosamente sem mencionar pessoas pelo nome, mas procurei recomendar o evangelho à consciência de cada pessoa, como diante da vista de Deus. Lembrem-se das advertências recebidas no Salão de Exeter — alguns de vocês se lembram dos quebrantamentos em Surrey Gardens; lembrem-se dos convites que já chegaram a vocês neste mesmo Salão; e se todas essas coisas falharam, o que mais deve ser feito sobre escutar e ficar aguardando? Muitos de vocês escutaram pregadores, igualmente sinceros, ternos; ora, se todas essas coisas não tiveram efeito sobre vocês, se aguardar à beira do tanque nada fez a seu favor, esse modo de proceder não é desesperado e desamparado? Não está na hora de experimentar algo melhor que meramente aguardar a agitação das águas? Não está na hora de vocês se lembrarem que Jesus Cristo está disposto a salvá-los agora, e que se confiar nele agora, receberá neste mesmo dia a vida eterna?

Ali jaz nosso pobre amigo, aguardando à beira da água. Não o culpo por aguardar, pois Jesus não estivera ali antes; foi acertado o homem agarrar-se à menor oportunidade de cura; mas era triste que Jesus tivesse sido tão menosprezado: ali caminhava, ziguezagueando entre cegos, mancos e paralíticos, e olhando com benignidade para todos eles, mas sem nenhum deles levantar os olhos a ele. Ora, em outros lugares, tão logo Jesus aparecia, traziam os enfermos nas macas e os deitavam diante de seus pés, e enquanto ele caminhava, curava a todos, espalhando misericórdias com as duas mãos. Alguma cegueira sobreviera a essas pessoas à beira do tanque; ali estavam eles, e ali estava Cristo, que podia curá-los, mas nenhum deles o buscou. Seus olhos estavam fitados na água, esperando sua agitação; estavam tão absortos com o caminho escolhido que o caminho verdadeiro foi negligenciado. Nenhuma misericórdia foi distribuída, porque nenhuma foi pedida. Ah, meus amigos, minha pergunta, feita em tristeza, é: Será assim neste dia? O Cristo vivo continua entre nós na energia do seu Espírito eterno. Vocês vão ficar dependendo das suas boas obras? Confiarão na sua freqüência às igrejas e capelas? Vão se firmar nas emoções, impressões, e crises de terror, e deixar Cristo — poderoso para salvar totalmente sem receber nenhum vislumbre de fé partindo de algum olhar, nenhuma oração? Se é assim que tem que ser, pensar nisso parte o coração; homens, com o Médico todo-poderoso em casa, morrem enquanto se entretêm com o charlatanismo sem esperança, que eles mesmos inventaram. Ó pobres almas! Betesda se repetirá aqui nesta manhã, e Jesus Cristo, o Salvador presente, será negligenciado de novo? Se um rei desse o anel a um súdito, e lhe dissesse: “Quando estiver em aflições ou humilhações, simplesmente me envie o anel, e farei por você todo o necessário”, se esse homem deliberadamente se recusasse a enviá-lo, mas, para conquistar o favor do monarca, comprasse presentes, ou realizasse algumas proezas de bravura, vocês diriam: “Que tolo é ele; aqui há uma solução simples, mas ele não quer fazer uso dela, desgasta o cérebro inventando novos esquemas, e gasta a vida em labutas para pôr em prática planos que necessariamente terminarão em decepção”. Não é esta a situação de todos os que se recusam a confiar em Cristo? O Senhor lhes assegurou: se confiarem em Jesus, serão salvos; mas lidam com dez mil coisas por eles imaginadas, e deixam de lado seu Deus, seu Salvador.

Entrementes, o enfermo, tendo sofrido tantas decepções, desenvolve desespero profundo. Além disso, estava envelhecendo; pois 38 anos é um período longo para tirar da vida de um homem. Achava que morreria dentro em pouco. O fio fraco da vida estava quase partido, e assim, à medida que os dias e as noites passavam lenta e pesarosamente, embora continuasse esperando, a espera passava a ser um serviço pesado. Meu amigo, você não está neste caso? A vida está se desgastando. Não está com cabelos brancos aqui e ali? Durante todo esse tempo, você espera em vão, e advirto-o de que sua espera é pecaminosa. Você viu outros serem salvos. Seu filho está convertido, sua esposa também, mas você não; e você está esperando, e receio que continuará a fazê-lo, até que, com o acompanhamento de “A terra voltará à terra, o pó ao pó, as cinzas às cinzas”, a terra vegetal chocalhará na tampa do seu caixão, e sua alma estará no inferno. Peço-lhe, por favor: não brinque mais com o tempo. Não diga: “Há bastante tempo”; pois quem é sábio sabe que bastante tempo já é bem pouco. Não seja como o bêbado tolo que, cambaleando para casa certa noite, olhou para a vela acesa para ele. “Duas velas!”, disse ele, pois sua embriaguez o levava a ver dobrado, “vou apagar uma delas”, e ao apagá-la, no mesmo momento estava no escuro. Existe quem vê dobrado pela embriaguez do pecado — pensa possuir a vida para fazer estrepolias, e depois, a vida mais madura no fim, na qual possa se voltar a Deus; assim, sendo tolo, apaga a única vela que possui, e na escuridão terá de deitar para sempre. Apresse-se, viajante, você tem um só sol, e quando este se puser, não alcançará o lar! Deus o ajude a se apressar agora!

 

II. Examinemos o Médico pessoalmente.

Como já vimos, nosso Senhor estava andando, nessa ocasião, esquecido e negligenciado, no meio daquela multidão de inválidos, sem ninguém exclamar: “Filho de Davi, tem misericórdia de mim!”, nenhuma mulher esforçando-se para tocar nas fímbrias das vestes dele, a fim de ser recuperada! Todos desejavam ser curados, mas, ou ninguém o conhecia, ou ninguém confiava nele. Que vista estranha, que deixava a alma se sentindo mal! Isso porque Jesus estava bem capacitado e disposto a curar, mas ninguém o buscou. Essa cena se repetirá nesta manhã? Jesus Cristo é poderoso para salvá-los, meus ouvintes. Não existe coração tão duro que ele não possa amolecer; não existe ninguém tão perdido que Jesus não possa salvar. Bendito seja meu Mestre, porque nenhum caso chegou a ser demais para ele; seu grande poder alcança além das máximas profundezas de todos os pecados e tolices da humanidade. Se houver uma meretriz aqui, Jesus pode purificá-la. Se houver um beberrão ou um ladrão aqui, o sangue de Jesus pode torná-lo branco como a neve.

Caso sinta algum desejo por ele, você não foi além do alcance da sua mão traspassada. Se não está salvo, certamente não é por falta de poder no Salvador. Além disso, sua pobreza não é empecilho, pois meu Mestre nada pede da sua parte — quanto mais pobre o miserável, tanto mais bem-vindo a Cristo. Meu Mestre não é nenhum sacerdote cobiçoso, que exige pagamento pelo que faz — ele nos perdoa gratuitamente; não cobra méritos da sua parte, nem qualquer outra coisa; venha a ele como está, pois ele se dispõe a acolhê-lo como está. Mas eis minha tristeza e queixa: que este bendito Senhor Jesus, embora presente para curar, não recebe atenção alguma da maioria das pessoas. Olham em outra direção, e não têm olhares para ele. No entanto, Jesus não ficou zangado. Não vejo repreensão que jazia entre os pórticos, nem de que tivesse algum pensamento crítico contra eles; mas estou certo de que tinha dó deles, e que dizia no coração: “Que pena dessas almas infelizes, que não sabem quando a misericórdia chega tão perto delas!”. Meu Mestre não está irado com quem o esquece e o negligencia, mas ele se compadece de vocês, de todo o coração. Sou apenas seu humilde servo, mas eu me compadeço, do íntimo do meu coração, de vocês que vivem sem Cristo. Bem que eu desejaria chorar por vocês que estão experimentando outras formas de salvação, pois todas terminam em decepção, e se forem levados adiante, revelarão ser sua eterna destruição.

Observem muito cuidadosamente o que o Salvador fez. Olhando ao redor, entre todas as pessoas presentes, fez uma escolha. Ele tinha o direito de fazer a escolha que quisesse, e exerceu sua prerrogativa soberana. O Senhor não tem obrigação de outorgar misericórdia a todas as pessoas, nem a qualquer uma especificamente. Ele a proclamou livremente a todos vocês; mas já que a rejeitam, ele agora tem o duplo direito de abençoar seus escolhidos ao torná-los dispostos no dia do seu poder. O Salvador selecionou aquele homem do meio da grande multidão, não sabemos o motivo, mas certamente por uma razão fundada na graça. Se pudéssemos nos aventurar a oferecer uma razão para a escolha, poderia ser a gravidade do caso, e também quem esperara por mais tempo. O caso desse homem era comentado por todos. Diziam: “Esse homem está ali faz 38 anos”. Nosso Senhor agiu segundo seu propósito eterno, e fez como lhe agradou com quem lhe pertence; fixou o olhar de amor eletivo naquele único homem e, chegando perto, observou-o fixamente.

Conhecia toda a história desse homem; sabia que ficara longo tempo naquela situação, e por isso tinha dó dele. Pensava nos meses e anos enfadonhos de decepção dolorosa, que o paralítico sofrera, e havia lágrimas nos olhos do Mestre; olhava para o homem, e olhou de novo, e sentia íntima compaixão por ele. Ora, não sei a quem Cristo pretende salvar nesta manhã mediante sua graça eficaz. Minha obrigação é fazer o convite geral a todos, e não posso fazer mais que isso, mas não sei onde o Senhor fará o convite eficaz, e só este pode tornar salvífica a palavra. Não me pareceria estranho que ele chamasse alguns de vocês que estão esperando por longo tempo. Se assim fizer, bendirei seu nome. Não acharia maravilhoso demais se o amor eletivo avançasse hoje sobre o principal dos pecadores; se Jesus olhasse para alguns de vocês que nunca olharam para ele, até seu olhar fazer vocês olharem, e sua compaixão os fizesse ter dó de si mesmos, e sua graça irresistível os fizesse chegar até ele para serem salvos. Jesus realizou um ato de graça soberana distintiva. Peço para vocês não resistirem a essa doutrina! Se resistirem mesmo, a culpa não é minha, pois a doutrina é certa. Tenho pregado o evangelho a cada um de vocês, tão livremente quanto o homem pode fazê-lo, e por certo, vocês que a rejeitam não devem ficar de mal com Deus por ele outorgar a outros o que não querem receber. Se vocês desejarem misericórdia, ele não a negará; se o buscarem, ele será achado por vocês; mas se não quiserem buscar a misericórdia, não zanguem com o Senhor se ele a outorgar a outras pessoas.

Jesus, tendo contemplado esse homem com especial consideração, disse-lhe: “Você quer ser curado?”. Já dei a entender que isto não foi dito porque Jesus procurasse se informar, mas porque queria despertar a atenção do homem. Por ser dia de sábado, o homem não pensava em ser curado, porque para os judeus parecia altamente improvável que curas fossem realizadas aos sábados. Jesus, portanto, levou os pensamentos do paralítico de volta à questão em pauta; isso porque, notem bem, a obra da graça é ação em uma mente consciente, e não na matéria insensível. Embora os puseyitas [anglicanos ritualistas] aleguem regene-rar crianças sem consciência por meio de aspergir-lhes o rosto com água — Jesus salva pessoas que usufruem do uso dos seus sentidos — e sua salvação é obra do intelecto vivificado e das emoções despertadas. Jesus despertou a mente cuja atenção se desgarrava, mediante a pergunta “Você quer ser curado?”. “Realmente”, o homem poderia ter perguntado, “realmente, eu o desejo acima de todas as coisas — anseio por isso — suspiro por isso”. Agora, meu caro ouvinte, farei a vocês a mesma pergunta. “Você quer ser curado? Você deseja ser salvo? Você sabe o que é ser salvo?”. “Oh”, você diz, “é escapar do inferno”. Não, não, não; isso é o resultado de ser salvo, mas ser salvo é coisa diferente. Você quer ser salvo do poder do pecado? Deseja ser salvo da cobiça, de ter mente mundana, mau gênio, injustiça, imperiosidade, impiedade, bebedice, ou profanidade? Está disposto a abrir mão do pecado que lhe é mais querido? “Não”, disse alguém, “não posso dizer honestamente que desejo tudo isso”.

Neste caso, não é você quem procuro agora; mas aqui há alguém que diz: “Sim, anseio por estar livre do pecado, radicalmente; desejo, pela graça de Deus, tornar-me cristão neste mesmo dia, e ser salvo do pecado”. Pois bem, visto que você já está considerando as coisas, vamos dar mais um passo adiante, e observemos o que o Salvador fez. Ele deu a palavra de ordem, e disse: “Levante-se! Pegue a sua maca e ande”. O poder pelo qual o homem se levantou não estava nele mesmo, mas em Jesus; não foi o mero som da palavra que o fez levantar-se, mas era o poder divino que a acompanhava. Creio realmente que Jesus continua falando por meio dos seus ministros; espero que ele fale por meio de mim neste momento, quando, em seu nome, digo a vocês que estavam esperando à beira do tanque: não fiquem mais aguardando, mas, neste momento, creiam em Jesus Cristo! Confiem nele agora. Sei que minha palavra não os levará a fazer isso; mas se o Espírito Santo operar por meio da Palavra, vocês crerão. Confie em Jesus agora, pobre pecador. Creia que ele é poderoso para salvá-lo; creia agora! Confie nele para salvá-lo neste momento; repouse nele agora! Se você for capacitado a crer, o poder virá da parte dele, e não da sua; e a salvação será efetuada, não pelo som da palavra, mas pelo poder invisível do Espírito Santo que acompanha a palavra.

Peço que você observe: embora nada seja falado no texto a respeito da fé, forçosamente ele deve ter tido fé. Suponha que você fosse incapaz de fazer um movimento com as mãos e os pés durante 38 anos, e alguém dissesse, ao lado da sua cama: “Levante-se!”, você nem pensaria em tentar levantar-se, isso seria impossível; é preciso ter fé na pessoa que falou aquela palavra; de outra forma, sequer tentaria. Acho que estou vendo o pobre homem — ali está ele, um monte ou feixe de nervos contorcidos e de músculos incapazes; porém, Jesus diz: “Levante-se!” e o homem se levanta em um só momento. “Pegue a sua maca”, diz o Mestre, e a maca é carregada. Nisso estava a fé do homem. Era judeu, e sabia que, segundo os fariseus, seria uma coisa muito ímpia ele dobrar a maca e carregá-la no sábado; mas por Jesus ter mandado, não levantou objeções; dobrou a maca e andou. Fez como lhe foi ordenado, porque creu em quem falou. Você tem semelhante fé em Jesus, pobre pecador? Crê que Cristo pode salvá-lo? Se for assim, então lhe digo em nome dele: confie nele! Confie nele agora! Se você confiar em Jesus, será salvo agora — salvo neste momento, e salvo para sempre.

Observem, irmãos amados, que a cura operada por Cristo era perfeita. O homem podia carregar sua maca; a restauração foi comprovada por uma demonstração, a cura foi manifestada; todos podiam vê-la. Além disso, a cura foi imediata. Não lhe foi ordenado a pegar em um aglomerado de figos, aplicá-lo na ferida, e esperar; não foi carregado para casa pelos amigos, e deixado de cama durante um ou dois meses, e paulatinamente levado, por atenções de enfermagem, à energia vital. Oh, não! Foi curado no mesmo momento. Metade dos nossos cristãos professos imaginam que a regeneração não pode ocorrer em um só momento; e, portanto, dizem aos pobres pecadores: “Vão deitar-se à beira do tanque em Betesda; fiquem esperando com o uso das ordenanças; humilhem-se a si mesmos; procurem arrependimento mais profundo”. Amados, fora com semelhantes ensinos! A cruz! A cruz! A cruz! Dela depende a esperança do pecador! Não dependa do que você pode fazer, nem do que os anjos podem fazer, nem de visões e sonhos, nem de sentimentos e de emoções estranhas, nem de delírios horríveis, mas confie no sangue do meu Mestre e meu Deus, morto uma vez a favor dos pecadores. Há vida no olhar dirigido ao Crucificado, mas não há vida em nenhum outro lugar. Nesta segunda divisão, chego à mesma conclusão que a primeira. Assim diz o Senhor: “Voltem-se para mim e sejam salvos, todos vocês, confins da terra” (Is 45.22).

 

III. Em terceiro lugar, precisamos aplicar o caso do texto à presente ocasião.

Espero, crentes, que seu coração esteja subindo em oração nesta manhã. Se alguém nos tivesse dito que tamanha multidão de pessoas teria se reunido para ouvir a pregação do evangelho, não haveria centenas de pessoas que tivessem duvidado disso? Notem bem que não temos nada de novidade para atrair essa multidão: nada no sentido de cerimônias deslumbrantes, sequer temos o crescendo do órgão: abri mão das suas notas ribombantes, para não parecer que dependêssemos, no mínimo grau, de um fio ou de um cadarço, de qualquer coisa que não fosse a pregação do evangelho. A pregação da cruz é suficiente para atrair o povo, e para salvá-lo, e se adotamos outra coisa, perdemos o poder e cortamos as mechas de cabelo que nos deixam fortes. A aplicação do texto, nesta manhã, é exatamente esta: Por que não podemos, aqui e agora, ter curas instantâneas de almas doentes? Por que não pode haver vintenas, centenas, milhares, que nesta manhã ouvirão a palavra graciosa: “Levante-se! Pegue a sua maca e ande?”. Creio que seja possível. Espero que seja feito. Quero falar com aqueles de vocês que duvidam dessa questão. Vocês ainda acham que devem esperar — na verdade já passaram por um período suficiente de espera, e já estão ficando bastante cansados –, mas ainda se agarram nesse plano antigo; por mais sem esperança que seja, vocês ainda se apegam a ele como os que se afogam agarram em fios de palha. Mas quero mostrar-lhes que isso está totalmente errado. A regeneração é uma obra instantânea, e a justificação é um dom instantâneo. O homem caiu em um só momento. Quando Eva colheu o fruto e Adão a comeu, não foram necessários seis meses para levá-los ao estado de condenação. Não foram necessários vários anos de pecados ininterruptos para lançá-los fora do paraíso. Seus olhos foram abertos pelo fruto proibido; perceberam-se nus, e se esconderam de Deus. Decerto, Cristo não vai se demorar mais na sua obra do que o Diabo demorou na dele! Será que o Diabo pode nos destruir em um só momento, mas Jesus é incapaz de nos salvar em um só instante? Ah! Glória seja dada a Deus, porque ele tem poder para livrar, muito maior que qualquer poder empregado por Satanás para a destruição do homem.

Olhem para as ilustrações bíblicas do que a salvação é. Mencionarei apenas três. Noé construiu uma arca; isso tipificava a salvação; ora, quando Noé foi salvo? Para nós, Cristo já construiu a arca, e nós nada tivemos que ver com aquela obra; mas quando foi salvo Noé? Alguém diz: “Ficou seguro depois de um mês na arca e de ter posto em ordem todas as coisas, e olhado para o dilúvio lá fora e sentido seu perigo”. Não! No momento em que Noé passou pela porta, e o Senhor o fechou dentro, Noé tinha segurança. Depois de ter passado um segundo na arca, estava tão seguro como se tivesse passado um mês lá dentro. Vejamos o caso da Páscoa: quando os judeus ficaram em segurança do anjo destruidor que passava pela terra do Egito? Ficaram em segurança depois de o sangue aspergido nas laterais da porta tinha sido contemplado e considerado durante uma ou duas semanas? Oh, não! Amados, no momento em que o sangue foi aspergido, a casa ficou segura; e no momento em que o pecador crê e confia no Filho crucificado de Deus, é perdoado de imediato, e recebe plena salvação mediante o sangue de Cristo. Mais uma ilustração bíblica: a serpente de bronze. Quando a serpente de bronze era levantada, o que deviam fazer os feridos? Foram ordenados a esperar até a serpente de bronze ser empurrada contra seu rosto, ou até a peçonha da serpente produzir certos sintomas na carne? Não, foram ordenados a olhar. E olharam mesmo. Foram curados daí a seis meses? Não leio assim; mas tão logo seu olhar se encontrou com a serpente de bronze, a cura foi realizada; e tão logo você, aí tremente, encontrar com o olhar a Cristo, está salvo. Embora ontem estivesse se embriagando profundamente, e com os pecados chegando até seu pescoço, hoje, se olhar para meu Mestre, trucidado no passado mas agora exaltado, você achará a vida eterna.

Vemos, também, as exemplificações bíblicas. O ladrão moribundo ficou aguardando, à beira do tanque, as ordenanças? Vocês sabem quão rapidamente sua oração da fé foi atendida, e Jesus disse: “Hoje você estará comigo no paraíso” (Lc 23.43). Os três mil no dia do Pentecoste, ficaram aguardando alguma coisa grandiosa? Pelo contrário: creram, e foram batizados. Considerem o carcereiro em Filipos. Foi na calada da noite que o cárcere foi sacudido, e o carcereiro ficou alarmado, e disse: “Senhores, que devo fazer para ser salvo?” (At 16.30). Paulo disse, porventura: “Pois bem, você deve empregar os meios de esperar que haja uma bênção nas ordenanças?”. Não! ele disse: “Creia no Senhor Jesus, e serão salvos, você e os da sua casa”, e naquela mesma noite o batizou. Paulo não se demorou a isso tanto quanto algumas pessoas acham ser necessário. Ele acreditava, da mesma maneira que eu, que existe vida na olhada dirigida a Jesus, e pediu aos homens que olhassem, e ao olharem, passaram a ter a vida.

Possivelmente você perceberá isso com maior clareza, se eu lhe fizer lembrar que toda a obra da salvação já foi realizada. Não há nada para o pecador fazer a fim de ser salvo — tudo foi feito a favor dele. Você quer ser lavado. Não há necessidade de encher a banheira. “Existe uma fonte cheia de sangue”. Precisa de roupas, mas não precisará fazê-las, pois estão prontas. O manto da justiça de Cristo é tecido de cima para baixo em uma só peça, e a única coisa que falta é vesti-la. Se sobrasse para você algum trabalho a ser completado, o processo poderia ser prolongado, mas o serviço é levado a efeito por Cristo. A salvação não é por obras, mas pela graça, e aceitar o que Jesus lhe dá de presente não é uma obra que exija tempo.

Quero lhe dizer, ainda, que a própria regeneração não pode ser uma obra de longa duração, pois mesmo nos casos nos quais parece ser mais gradual, revela-se, ao ser examinada mais de perto, a obra de um momento, quanto à essência. Ali temos um homem morto: ora, se esse homem for ressuscitado dentre os mortos, deve existir um momento em que estava morto, e outro momento em que estava vivo. A própria vivificação deve ser obra de um momento. Posso lhe conceder que, de início, a vida possa ser muito fraca, mas deve existir uma ocasião em que ela começa. Deve existir uma linha divisória — nós mesmos nem sempre a enxergamos, mas Deus forçosamente a vê — deve haver uma linha divisória entre vida e morte. Um homem não pode estar em algum lugar entre vivo e morto; ou está vivo, ou está morto; assim também você está morto nos pecados, ou vivo para Deus, e a vivificação não pode envolver um longo período.

Finalmente, meus ouvintes, para Deus dizer: “Eu o perdôo”, não leva um século, nem um ano. O juiz pronuncia a sentença, e o criminoso é inocentado. Se Deus lhe disser neste dia: “Eu o absolvo”, você está absolvido, e poderá ir embora em paz. Preciso dar fiel testemunho quanto ao meu caso. Nunca achei misericórdia por meio da espera. Nunca obtive um único raio de esperança ao depender das ordenanças. Achei a salvação ao crer. Ouvi um simples ministro do evangelho dizer: “Olhe e viva! Olhe para Jesus! Ele sangra no jardim, ele morre no madeiro! Confie nele! Confie no que ele sofreu no seu lugar; e se você confiar nele, será salvo”. O Senhor sabe que eu tinha ouvido o evangelho muitas vezes antes, mas não obedecera a ele. Veio, no entanto, com poder para a minha alma, e olhei mesmo, e no momento em que olhei para Cristo, perdi meu fardo. “Mas”, diz alguém, “como você sabe?”. Você pessoalmente já carregou um fardo? “Oh, sim”, responde. Você soube quando o fardo saiu? E como soube? “Oh”, você responde, “me senti tão diferente. Sabia muito bem quando meu fardo estava sobre mim, e, conseqüentemente, soube quando foi tirado”.

Foi exatamente assim no meu caso. Gostaria que alguns de vocês tivessem sentido o fardo do pecado como eu o senti, quando esperava à beira do tanque de Betesda. Foi uma bênção que essa espera não acabasse me levando ao inferno. Mas, quando ouvi a palavra “Olhe!”, olhei, e meu fardo tinha sumido; nunca o vi a partir de então, e nunca o verei de novo. Ele foi para dentro do túmulo do Mestre, e está enterrado ali para sempre. Assim Deus disse: “Como se fosse uma nuvem, varri para longe suas ofensas; como se fosse a neblina da manhã, os seus pecados” (Is 44.22). Oh, venham, vocês, os necessitados, venham a meu Mestre! Venham, vocês que estão decepcionados com ritos e cerimônias, e com sentimentos e impressões, e com todas as esperanças da carne, venham diante da ordem do meu Mestre, e levantem-lhe os olhos! Ele não está aqui na carne, pois ressuscitou; mas ressuscitou a fim de pleitear a favor dos pecadores, e “ele é capaz de salvar definitivamente os que, por meio dele, aproximam-se de Deus, pois vive sempre para interceder por eles” (Hb 7.25). Quem dera eu soubesse pregar o evangelho de tal maneira que vocês o sentissem, eu iria para qualquer escola para aprender fazer isso! O Senhor sabe que eu, com boa disposição, consentiria em perder os olhos, em troca de obter maior poder no ministério; sim, e até perder os braços, as pernas, e todos os meus membros.

Estaria disposto a morrer em troca de ser honrado pelo Espírito Santo no sentido de conquistar essa massa de almas para Deus. Imploro-lhes, irmãos, que possuem poder na oração: orem ao Senhor para ele trazer os pecadores a Cristo. Deixe-me dizer, com toda a solenidade, a vocês que ouviram a palavra hoje, que eu lhes contei com clareza o plano da salvação; se vocês não o aceitarem, estou inocente do seu sangue, sacudo para longe das minhas vestes a culpa do sangue da sua alma. Se vocês não vierem a meu Senhor e Mestre, terei que prestar pronto testemunho contra vocês no dia do juízo. Já lhe contei qual o caminho — não posso lhes contar com mais singeleza — rogo-lhes que o sigam! Rogo-lhes: olhem para Jesus! Mas se vocês se recusarem, pelo menos me tratem com justiça, ao ressuscitarem dentre os mortos e ficarem em pé diante do grande trono branco, e reconheçam que eu realmente implorei e tentei persuadir vocês a escaparem, que realmente insisti para fugirem da ira vindoura. O Senhor salve cada um de vocês, e dele seja o louvor para sempre. Amém.

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